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23.09.2026 | Dicas

Por que cavalos usam ferradura?

Os cavalos desempenham um papel importante em diferentes atividades, desde o trabalho no campo até as modalidades esportivas. Para que tenham saúde, conforto e bom desempenho, os cuidados com o manejo e a saúde dos cascos são fundamentais.

A ferradura é uma das ferramentas que podem fazer parte desse manejo. Mas será que todo cavalo precisa usar ferradura? Qual é a finalidade desse acessório? E como ele é colocado? Confira!

Por que os cavalos usam ferradura?

As ferraduras são estruturas, geralmente metálicas, fixadas na parte inferior do casco por um profissional especializado, o ferrador . A principal razão para o uso de ferraduras é proteger o casco do desgaste excessivo, especialmente em cavalos que trabalham em superfícies duras, percorrem longas distâncias ou são submetidos a atividades intensas, como esportes equestres¹. O casco é uma estrutura complexa que protege os tecidos internos do pé e participa da sustentação do peso, da absorção de impactos e da movimentação do cavalo. Sua parede é formada por tecido córneo, produzido continuamente, semelhante à queratina presente nas unhas humanas².

Por isso, a necessidade de ferradura não é igual para todos os cavalos. O uso deve considerar fatores como qualidade e conformação do casco, ambiente, tipo de piso, frequência e intensidade do trabalho e eventuais alterações ou lesões. Em alguns animais, o casco pode manter um equilíbrio adequado entre crescimento e desgaste sem a necessidade de ferradura¹.

Como é colocada a ferradura nos cavalos?

A colocação de uma ferradura exige conhecimento sobre a anatomia e a biomecânica do casco. O trabalho deve ser realizado por um ferrador qualificado e, quando houver alterações ou problemas de locomoção, pode ser conduzido em conjunto com o médico-veterinário¹.

De forma geral, o processo envolve algumas etapas:

  1. Avaliação do casco: O ferrador examina o casco do cavalo, verificando seu formato, tamanho e possíveis alterações.
  2. Preparo do casco: O casco é limpo, aparado e nivelado para garantir um encaixe adequado da ferradura. O ferrador utiliza ferramentas especiais para remover o excesso de material e corrigir imperfeições.
  3. Escolha da ferradura: A ferradura é selecionada de acordo com o tamanho e formato do casco, bem como com a atividade que o cavalo desempenha. Algumas ferraduras podem ser moldadas a quente para um ajuste mais preciso.
  4. Fixação da ferradura: A ferradura é fixada ao casco utilizando cravos especiais. Os cravos são inseridos em pontos específicos da parede do casco, evitando as estruturas sensíveis internas. As pontas dos cravos são então dobradas e cortadas para garantir que a ferradura fique bem presa e não cause desconforto ao animal²,³. 

Além do ferrageamento convencional, existem diferentes modelos de ferraduras e técnicas de ferrageamento terapêutico, que podem ser utilizados de acordo com as necessidades individuais do animal¹.

O que acontece se o cavalo não usar ferradura?

A necessidade de ferraduras varia de acordo com o cavalo, o ambiente e o tipo de trabalho que ele realiza:

  • Cavalos selvagens e alguns cavalos domésticos que vivem em pastagens macias: Seus cascos podem se desgastar naturalmente de forma equilibrada e não necessitam de proteção adicional¹.
  • Cavalos que trabalham em superfícies duras (asfalto, concreto): Seus cascos podem se desgastar muito rapidamente, levando a rachaduras, sensibilidade e até mesmo claudicação (mancar). Nesses casos, a ferradura é essencial para proteger o casco⁴.
  • Cavalos atletas: As exigências de esportes equestres podem colocar grande estresse nos cascos, tornando a ferradura uma proteção importante contra lesões¹,⁴.
  • Cavalos com problemas de casco: Ferraduras ortopédicas podem ser utilizadas para corrigir problemas de aprumo, auxiliar na recuperação de lesões e proporcionar suporte adicional⁴.

Se um cavalo que necessita de proteção não usar ferraduras, ele pode desenvolver dor, sensibilidade, rachaduras, abscessos e outros problemas que podem comprometer sua saúde e capacidade de movimento.

O cavalo sente dor quando a ferradura é colocada?

A parede do casco é formada por tecido córneo e não possui vasos sanguíneos ou nervos, o que permite que os cravos sejam colocados nessa região sem causar dor quando o procedimento é realizado corretamente².

Isso não significa, porém, que o processo seja livre de riscos. No interior do casco existem estruturas sensíveis, e um cravo colocado muito próximo dessas estruturas pode exercer pressão e provocar dor. Quando o cravo atinge ou irrita tecidos sensíveis, o animal pode apresentar desconforto, claudicação e, em alguns casos, complicações como inflamação ou abscesso³.

Por isso, o ferrageamento deve ser realizado por um profissional capacitado, com conhecimento da anatomia do casco e atenção ao posicionamento dos cravos.

Quanto tempo um cavalo pode ficar com a ferradura?

A frequência com que as ferraduras precisam ser trocadas varia de cavalo para cavalo, dependendo do seu ritmo de crescimento do casco, do tipo de trabalho que realiza e das condições do ambiente. Geralmente, as ferraduras precisam ser removidas, os cascos aparados e novas ferraduras colocadas a cada 4 a 8 semanas. Deixar as ferraduras por um período muito longo pode levar a problemas como crescimento excessivo do casco, desequilíbrio e até mesmo lesões¹.

Existe algum risco no uso de ferraduras?

Embora as ferraduras sejam importantes para muitos cavalos, seu uso também apresenta alguns riscos potenciais:

  • Lesões: Se a ferradura não for colocada corretamente, os cravos podem atingir estruturas sensíveis do casco, causando dor e abscessos³ .
  • Desequilíbrio: alterações no casqueamento ou no ajuste da ferradura podem modificar a distribuição das forças no casco e influenciar a biomecânica do membro⁴. 
  • Infecções: Buracos de cravos podem ser uma porta de entrada para bactérias e fungos, causando infecções no casco⁴ .
  • Dependência: Em alguns casos, o uso contínuo de ferraduras pode tornar o casco mais macio e dependente da proteção.

A decisão de ferrar um cavalo e a forma como isso é feito devem ser baseadas nas necessidades individuais do animal e na orientação de um veterinário e de um ferrador experiente.

Principais cuidados com o casco

Independentemente de o cavalo usar ou não ferraduras, os cuidados regulares com os cascos são essenciais para a sua saúde e bem-estar¹:

  • Limpeza diária: Remova pedras, lama e outros detritos dos cascos diariamente para prevenir lesões e infecções.
  • Inspeção regular: Verifique os cascos em busca de rachaduras, lascas, corpos estranhos ou sinais de infecção.
  • Casqueamento e ferrageamento regulares: O acompanhamento por um profissional qualificado ajuda a manter o equilíbrio do casco e identificar alterações precocemente¹.
  • Ambiente adequado: condições ambientais e de manejo podem influenciar a saúde dos cascos. O acompanhamento deve considerar o tipo de piso, umidade, limpeza das instalações e rotina do animal.
  • Atenção a alterações de locomoção: mudanças no movimento, redução de desempenho, relutância para caminhar ou sinais de dor podem indicar problemas nos cascos e devem ser avaliados.

A importância da nutrição para a saúde dos cascos 

A nutrição adequada é fundamental para a formação e a manutenção da qualidade dos cascos dos equinos. O fornecimento equilibrado de proteínas, vitaminas e minerais contribui para a produção do tecido córneo e para o crescimento saudável dos cascos¹,⁷.

Entre os nutrientes importantes nesse processo está a biotina, uma vitamina do complexo B que participa do metabolismo de nutrientes e está relacionada à qualidade do tecido córneo. Quando fornecida de forma adequada, sua suplementação pode contribuir para melhorar a qualidade dos cascos, especialmente em animais com alterações nessa estrutura⁵,⁶.

Conclusão

A ferradura é uma ferramenta de manejo que pode proteger o casco contra o desgaste, melhorar a tração em determinadas situações e auxiliar no tratamento de alterações específicas. No entanto, nem todo cavalo precisa ser ferrado. A necessidade deve ser avaliada individualmente, considerando o ambiente, o tipo de atividade, o crescimento e o desgaste do casco e as condições de saúde do animal. 


Referências:

  1. CASTELIJNS, H. H. The basics of farriery as a prelude to therapeutic farriery. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice, v. 28, n. 2, p. 313-331, 2012.
  2. MCCLURE, R. C. Functional anatomy of the horse foot. University of Missouri Extension, 1999.
  3. DABAREINER, R. M.; MOYER, W. A.; CARTER, G. K. Trauma to the sole and wall. In: Diagnosis and Management of Lameness in the Horse. WB Saunders, 2011. p. 309-319.
  4. AOUN, R.; TAKAWIRA, C.; LOPEZ, M. J. Horseshoe effects on equine gait—A systematic scoping review. Veterinary Surgery, v. 54, n. 1, p. 31-51, 2025.
  5. GEYER, H.; SCHULZE, J. The long-term influence of biotin supplementation on hoof horn quality in horses. Schweizer Archiv für Tierheilkunde, v. 136, n. 4, p. 137-149, 1994.
  6. JOSSECK, H.; ZENKER, W.; GEYER, H. Hoof horn abnormalities in Lipizzaner horses and the effect of dietary biotin on macroscopic aspects of hoof horn quality. Equine Veterinary Journal, v. 27, n. 3, p. 175-182, 1995.
  7. ELIASHAR, MRCVS Ehud. The biomechanics of the equine foot as it pertains to farriery. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice, v. 28, n. 2, p. 283-291, 2012.
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